domingo, maio 09, 2010
sexta-feira, junho 05, 2009
quarta-feira, junho 03, 2009
Ás vezes, no quarto escuro, todas as fendas da parede se enchem de luz... Fico atónito... Como é possível entrar luz num quarto vedado a qualquer outro ser humano senão o eu suspenso e inquisidor que vomita sobre as próprias acções e pensamentos? Que fenómeno mágico este que ocorre a centímetros de distância do meu desespero, do meu bailar dolente na cadeira que baloiça, das paredes fendidas que me apartam de um céu carregado de pinceladas de neblina e vestígios de estrelas... Esta luz que me faz recuperar a razão...
O lobo adormece e com ele se inumam os demónios palradores que não param de gritar, de xingar, de escarnecer dos fracos de corpo e dos fracos de espírito... Mas a luz vem e deixa-me sentir a palma das suas mãos e o toque carinhoso dos seus dedos. Como gosto de sentir os toques de dedos compostos de fotões, de partículas ínfimas que de tão frágeis são fortes ao ponto de amordaçar os meus demónios... Fica um pouco mais e sê o meu cobertor por apenas uma noite, não mais... Sentir-te-ia como à estrela distante que me emite luz em espectros de luz invisíveis e que, da profundeza da sua amargura, me avisa que um dia voltará a sorrir, mas nesse dia eu repousarei junto a ela para emitir a luz que, com tanta bondade, não paraste de oferecer... E o que fica no lugar escuro cujas fendas eram cheias de luz? O que fica não sei...ninguém sabe. Mas sei que a luz permanecerá comigo até ao dia em que eu próprio não tiver mais luz para irradiar... Vou ser contigo e por ti a estrela que morre… Vou ser uma supernova…
terça-feira, maio 12, 2009
Revivo de cada vez que vejo, ao longe, encoberta pela opacidade dum vidro, a luz sofrível dum carro. Dilato ao som de paredes, soalhos e tetos em ruína, nas passagens ora brandas ora aceleradas das nuvens soturnas no céu. Que hei-de dizer de mim quando em palavras mudas desconheço a minha própria essência. Ai, os gritos ensandecidos de homens e mulheres embriagados que reclamam com o deturpado, com o sujeito ser rosto que vive entre mim e entre nós, reclamam deles próprios em embrulhos de culpas distribuídos ao vento… O vento, que bate levemente no meu rosto enquanto o cigarro diminui e os carros ora abrandam ora aceleram soturnos na frieza das estradas. Uma razão não é razão só porque existem olhos que descodificam as almas de quem não vê. A razão é muito mais. A razão são as andorinhas atarefadas, tomadas pela responsabilidade de legar à espécie mais algum tempo, as gaivotas que rapinam ora aqui ora ali, soturnas, no lixo de todos nós, de aqueles que conspurcam as almas e de aqueles que conspurcam o corpo. E um só dia em que o sol brilha soturno por de entre as nuvens que anunciam chuva bastaria para que o amor que há em mim fosse diferente, fosse obtuso, confuso ou quiçá mais sisudo. Ó homens e mulheres embriagadas que da chuva da noite fazem confidente, que confesso à chuva da noite que sou mais vosso confidente do que vocês de vós mesmos, desde o primeiro minuto, desde o primeiro bramido… sofrido, esquecido na luz fosca dos carros por de entre os vidros, da viagem entre o opaco e o translúcido, que havemos de voltar um dia para recuperar as palavras de desagrado que de nós mesmo se fizeram em figura irreal. Havemos de… voar, talvez.
segunda-feira, março 30, 2009
Parece-se com um diálogo com um estranho. Parece-se com uma interlocução com um desconhecido, um ser sem nome nem rosto que deambula pelos campos escravos do meu subconsciente. E, no entanto, há a nítida percepção de que travo um diálogo comigo mesmo, por canais e realidades impalpáveis, onde a minha voz, que é minha e que me pertence desde o dia em que comecei a falar, se transforma na voz de outrem que não é corpo nem alma, espírito ou físico. Há algo de melhor nas suas palavras que não consigo entender. Há algo de vago na sua mensagem que me faz estremecer. Vai-te voz do outro mundo, vai-te para longe. Liberta o meu corpo e dá voz às minhas memórias. Não mereço as memórias de uma vida que não vivi, que não experimentei, onde o sentimento calejado não foi o meu. Vontade estranha de rasgar o ventre para soltar o monstro que cresce, a voz que ecoa silenciosa nos meandros da minha audição, e de catatonia vitima, deixo-me conduzir pelos vocábulos sem sentido do espírito que me ceva. Nada pode ser feito de melhor do que o que foi feito por memórias e experiências alheias. Tudo o que existe é a obra muda e difusa de quem viveu permanentemente diante de mim e do meu corpo tomou posse. São vazios, vazios, vazios, repletos de vazios. Um conselho, uma palavra de reconforto, são tudo imaginações… O segredo fugiu-me e escondeu-se no lado oculto do meu pensamento, e o medo vive nas costas de quem carrega a alma que sucumbiu de receios. É tudo vazio, tudo vazio, vazio por demais.
segunda-feira, março 16, 2009
Luzes, milhões de pequenas luzes impedem-me de desfrutar da escuridão perfeita. Odeio as luzes. Malditas luzes que oscilam ao sabor dos movimentos irritantes da minha cabeça, que, na falta de consistência mental, vacila alarvemente de um lado para o outro, da esquerda para a direita, de cima para baixo. E tento auxiliá-la apoiando sobre a firmeza obsoleta duma cadeira ultrapassada. Olho para o infinito do meu interior, tão apinhado de sombras e escuridão que mal consigo discernir onde se escondem as minhas memórias e onde vive o meu medo, e as luzes exteriores que maldigo irrompem-me a minha retina sem que eu lhes houvesse dado permissão, e a amofinação de querer ver-me a mim a sofrer de um sofrimento azedo é dulcificado por luzes difusas e humedecidas que brilham para lá da janela que me expulsa do meu mundo. Que razão tenho para ter um momento de imaginação, que razão tenho para escutar os sons nebulosos que ecoam em meu redor, que razão tenho para acreditar que a minha vida é um sonho que se desenvolve no limiar do sono da morte. As noites aquecem de sofrimento, de angústia, de loucura, no âmago da minha solidão brilha um luz ténue e exânime, uma luz que talvez tivesse existido num tempo passado onde eu e eu éramos um só, com um objectivo comum, com esperança, com razões para acordar de manhã e levantar as mãos para o céu em jeito de agradecimento pelo grandioso sol que brilha ao renascer dum novo dia. Infelizmente, agora só sombras me contemplam pela manhã, sombras que destruíram o meu sono e que querem igualmente destruir o novo dia que acaba de nascer. O dia é um nado morto e eu acompanho-o na sua trágica demanda. Não há sol, não há um novo dia, não há luz. A luz é maldita e não deixa que sossegue, que aprecie cada segundo cáustico do meu isolamento.
sexta-feira, março 13, 2009
quinta-feira, março 12, 2009
Prescindi de me servir de ti para salivar os nós cegos que se atam avidamente ao caminho das palavras. Sinto a tua falta e mesmo assim sou incapaz de te apelar quando mais nada nem ninguém está disponível para me ouvir. E dúvidas começam a suplantar as certezas, as forças nas pernas começam a fraquejar e o sistema nervoso contraria-se a si próprio. Tenho amontoados de linhas que mantive em cativeiro sem que disso tivesse beneficiado, quando o que queria era desmontá-las em pequenas palavras e envia-las a ti, que lês, relês e critica-las, e não te deixas subjugar à ganância e ao egoísmo do meu pensamento. Poderia descrever-te com todos os pormenores, úteis e inúteis, a sensação de esmagamento que tenho na cabeça, a dor que advém de não ter a mestria de verbalizar os sentimentos, as mãos tremulas que transmitem a insegurança e a vontade insana de apagar da memória estas malditas reacções que me diminuem perante os demais. O curioso é que eu nunca pedi os demais, mas eles permanecem junto a mim como que a lembrar-me do castigo que me inflijo por querer infligi-lo por mim. O meu cérebro perde tino a cada quilómetro temporal percorrido e eu assisto impávido à minha destruição, querendo umas vezes desaparecer intensamente ou ficando parado na minha doce apatia nas outras tantas que não consigo enumerar. É um inferno viver em nós mesmos, esquecer que somos um grande ente que vive em função da funções do todo, apagar as luzes para dissipar o pensamento, como se isso fosse viável, e rendermo-nos ao esquecimento dos químicos. A minha paciência, que até hoje tem sido quase divina, começa a manifestar a sua fraca humanidade. Fartei-me de estar farto de mim, fartei-me de mim e fartei-me de me fartar. Quero mais…. Quero mais monotonia.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Ando despojado de empenho de viver, a fraqueza é dona e senhora do meu corpo. Ando a leste do paraíso, a meio caminho da apatia, o sol põe-se a poente e não volta a nascer, ando sumido no medo incompreensível de cair numa rotina maldita e sofro por sofrer de mim mesmo, sem viabilizar as razões do meu medo ou o medo de ser de mim. A chuva continua a cair e o meu querer de deambular pelo mundo dos outros resume-se a uma necessidade de estar constantemente deitado, de mente e sentimentos vazios, voltado para o lado oco da minha própria existência, onde nem eu nem as imagens erradas da minha imaginação chegam a um acordo. Vivo assim, envolto na nostalgia das coisas que não vivi, carente dos sentimentos que nunca senti, à espera que a vida me oferte aquilo que nunca pedi. É mau demais, mas, de qualquer maneira, só consigo reconhecer o pior, como se ele e eu fossemos um só, destinados a caminhar de mãos dadas por caminhos em que o negro reveste as três dimensões que o meu físico pode sentir e às vezes tocar, já nem sei, nem sei sequer se são somente três as dimensões que o meu todo alcança. Isso é irrelevante. É tudo negro na mesma. Sou um cadáver vivo jogado a uma desinteressante sequência dos mesmos acontecimentos por si só desinteressantes, acamado no leito das agonias que não se manifestam de maneira a conseguir uma alforria e regressarem ao solo, ao profundo, ao centro da terra, ao local calmo e silencioso que serve de baú às agonias que surgem sem explicação. Dá-me um latejar no peito e na garganta, altera-se-me o ritmo cardíaco enquanto o coração conduz a orquestra duma morte prematura, talvez demasiado tardia tendo em conta o que o destino me reservou, mas continuo a fintar a morte sem saber muito bem o porquê ou o como, estranhando o momento em que adquiri esta arte curiosa, e a vida continua impávida e serena e eu embebido na minha agonia, fraqueza e nenhuma intenção de viver. Salvem-se, pelo menos, as melancolias e as nuvens, o cinzento, a densa neblina, as paredes húmidas do prédios e das estradas, o som continuo de água a correr, os limpa pára brisas dos carros e a insuportável corneta da morte, porque eu da vida já não espero mais nada… Resta-me a rotina, a dolorosa rotina de uma vida com paragem no suicídio, no suicídio dos sentimentos e das confusões, dos porquês e da vitimização, à espera que o meu corpo caia pesadamente no leito que me acomodará para o eternamente. Vivo para morrer, é isso.
sexta-feira, janeiro 09, 2009
quinta-feira, janeiro 01, 2009
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Não sei se tenho frio ou calor. Nem sei sequer se existo para além das oscilações de temperatura que se fazem sentir aqui, no gelo, mas, no entanto, estou tomado duma certeza com a qual aprendi e continuo na aprendizagem de viver. O frio é a temperatura definitiva da minha alma. Teço fogueiras imaginárias dentro da minha imaginação, as quais são abundantemente regadas de combustíveis impossíveis, realizo diligências por lugares solarengos na imensidão do equador da minha vontade e o resultado é sempre o mesmo, frio, um resultado que não trás nada de novo à situação que condiciona a demanda e afundo-me, afunda-me. Era bom saber que havia escondida no mundo do reais a solução para a rigidez mórbida que deturpa a alma, que apesar de acompanhada por uma imaginação efervescente e activa não desvenda as forças fundamentais para que a fricção de sentimentos despolete numa chama, num simples e quente fogo que alteraria a temperatura que há em mim e dentro de mim. Toda a gente grita que no mundo a única coisa que permanece para além do ódio e dos sentimentos pestilentos da alma são a fraternidade e o conforto que sentimos quando vivemos os dias das nossas vidas com os nossos iguais, e isso é a verdade que me fere por ser a maior mentira que consigo e quero conceber. A distância dos meus pares, um pouco à semelhança do lobo que, por fraqueza, perdeu o lugar na alcateia e vagueia, só e dolente, numa demanda pela sobrevivência, é a caldeira do calor gelado que orienta a globalidade do meu ser, do despertar desalinhado, ao deitar aterrorizado. Que vida fui escolher, ou talvez tenha sido escolhida por mim para mim, que nem sequer consigo conceptualizar as temperaturas da forma que os outros as concebem, e aproveitam, e jubilam por ser tudo um inverso do meu desgosto setentrional. Sou eu é de mim a tundra das almas, sou eu e é de mim a taiga dos desolados. A minha débil alma emigrou para as bandas do norte e o meu corpo permanece no seu (in)feliz recanto onde são glorificados aqueles cuja a alma emana uma luz e um calor interior assinaláveis e lega à desgraça os filhos malditos que essa luz e esse calor negligentemente conceberam.
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Lembro o dia em que o buraco desmoronou como lembrarei o dia em que o buraco que cavei voltou a fechar-se, e nesta sucessão de lembranças acordo para a verdade daquilo a que, com contemplações e falas meigas, me sujeitei sem clamor nem alteração. O ritmo de trabalho assemelha-se a um caminhar desajeitado de um aleijado, que por não saber andar, preferiu atirar-se a um rio e pelas águas sujas e malignas ser conduzido, sem contudo obliterar o caminho que, com dificuldade, foi traçando com o arrastar lento e pesado do seu corpo morto, que é morto desde o dia em que em lágrimas despertou para a vida. Nesse caminho há tempestades assustadoras e raios que se revoltam em variadíssimas direcções, e no fundo de um vale encoberto pela luminosidade de uma estrela que não é feita da mesma matéria de que são feitas as estrelas a que vulgarmente costumamos associar a luz que por elas é emitida, que no fundo pouco ou nada representam quando comparadas com a cerração a que o sol sujeita aqueles que da noite fazem dia e do dia um sarcófago para uma mentira, abre-se a possibilidade de deixar de cavar para cair num buraco feito por outros iguais aos outros, mas senhores de uma outra cobardia, a cobardia de descobrir se do lado de lá há alegria.
Tempos mortos estes em que a chuva cai em direcções incertas sobre uns ombros que carregaram fardos invisíveis, mas estranhamente penosos, tão enfadonhos quanto a monotonia pode ser enfadonha e o fado que uma estrela que deveria resplandecer pode doar-nos a nós, amantes duma obscuridade que não concebe outra situação que não a luz, mesmo quando das paredes escuras dum céu carimbado de estrelas se forma uma luz que não serve para iluminar. É isso que me entristece e me incentiva a continuar no cavar para uma posteridade na qual o reconhecimento será dado aos montes de areia que se formam aqui e ali e que em nada contribuem ou contribuirão para o reacender da chama das estrelas caprichosas e bandidas que acenam alarvemente, sem contudo atribuir aquilo que, por palavras mais sinceras, poderia representar um rasgo de felicidade. E a tristeza afunda-se em nós e o barco que é a nossa alma, que vigorosa - como o barco a que correspondia - navegava sobre as vagas de um sentimento soturno e desconhecido, perde o barqueiro lúcido que sabia que destino poderia hipoteticamente agradar à sua tripulação, tristes bandidos duma noite sem luz que, na amargura de uma amanhã que será exactamente igual ao amanhã que foi ontem, continuam na árdua tarefa de cavar o buraco que se abriu no dia em que, com lágrimas e pranto, despertaram para a vida. Deste lugar tolhido pelos antepassados dos homens que acreditavam na beleza de um futuro em que as estrelas não só iluminariam os caminhos do dia, mas também iluminariam os caminhos da noite, não quero recordação que sobreviva ao dia em que o corpo regressar ao buraco fechado que assim está na certeza de que esse corpo ao buraco volta porque da sua alma foi rendido. Infernizados sejam todos os que me venderam sonhos com defeito e futuros com alegrias em catadupa. As catadupas defeituosas de sonhos destruídos são a única recordação que ficou desse caminho amargurado que com o corpo pesado de uma aleijado percorri. Vou apagar as luzes falsas que me alumiam, para de seguida jogar-me ao buraco encerrado que jamais voltará a ser aberto a não ser por magia, uma magia que não conhece outra qualquer e que reside dispersa em bocados de papel apodrecido, e dos sonhos desfeitos, das estrelas manhosas, das verdades absolutas, das tempestades de raios, dos despertares em lágrimas para o pesadelo que foi uma vida libertar-me-ei para sempre.
quarta-feira, dezembro 10, 2008
terça-feira, dezembro 09, 2008
segunda-feira, dezembro 01, 2008
1893
Continuo a pensar em mim e em mais nada, continuo preso ao fascínio que tenho por mim mesmo, que me faz adorar os dilemas e problemas em que vivo e que não existem, e oculto-me sob o véu farto dum belo olhar que pouco mais percorre do que a distância entre a ida dos meus pensamentos até à retina e o caminho de volta às minhas idiotices. O meu cérebro é feito de poeira, que levanta à mínima agitação, ao mínimo movimento, transformando-se subitamente numa confusão que se centra sobre as confusões que o compõe a si mesmo. Não há Inverno nem Primavera que quebrem ou façam renascer ao folhas que se alimentam eternamente de ideias nos galhos da minha obsessão por mim mesmo, e os anjos das religiões pequenas continuam a ser os alvos preferenciais da culpabilização por o universo continuar circular em meu redor, pelas coisas pequenas e grandes manterem as suas órbitas no limiar daquilo que pode ser por mim processado através das experimentações pelos sentidos, quando nada disso acontece, é como se o meu peso e pesar obrigassem os espaços e os tempos a condescender e as realidades, os pensamentos, os sentimentos, as agitações, os receios, as peripécias e a vida das pessoas ficassem conglutinadas em mim, mesmo sabendo que incomodam profundamente, os seus sons, os seus movimentos, a sua afectuosidade, a sua paixão, o mundo em que vivem, e eu próprio, raios. O mundo, este onde eu e todos os outros existimos, uns com prazer, outros com ódio, dilacera-me de dentro para fora, debaixo para cima, faz-me querer parar de respirar a qualquer momento, rasgar a carne e sangrar até não poder mais e fenecer. Mas a cobardia, a maldita cobardia que proíbe que eu dê o passo seguinte, o medo de perder as pessoas, os sons, as agitações, os cheios, os sentimentos e a vida que tenho é maior do que a falta de vontade de permanecer neste lugar infernal que existe para que as pessoas penem por crimes que realizaram numa realidade e num tempo que só a Deus compete delimitar, um designío divino cheio de incongruência e falácias. Este lugar dos infelizes é cruel, doloroso, sombrio, mas é tão belo… o mundo que se construiu à minha volta e no qual eu, qual criança que brinca com os legos, fui colocando as minhas peças, este meu mundo é lindo e eu adoro-o, não o quer perder e amaldiçoo a morte por saber que um dia ela mo levará, mo roubará, mo tirará sem dor nem clemência, com prazer e satisfação, e vou ficar aqui assim, estendido, pasmado, a sofrer pelas pessoas, pelos sons e pelos sentimentos que o destino fez o favor de me roubar. Não, não mereço isso. O mundo tem que permanecer da maneira que é e que sempre foi, as pessoas que amo devem ficar para sempre ao meu lado, os sons que me agradam devem tocar suavemente nos momentos que eu assim o quiser, os pássaros devem vir cantar-me aos ouvidos assim que o sol se levantar, a ternura deve despoletar quando o caos agita e a morte não tem o direito de destrui-lo, o meu pequeno mundo que tão loucamente adoro.
Inevitavelmente, não tenho os poderes que os homens atribuíram, no seu receio pelo desconhecido, aos Deuses e por isso o mundo do meu ideal vai ruir e o meu egoísmo será ainda maior e casará com o desprezo, com o desencanto, e aí a maldita cobardia acabará por ceder e eu vou poder reconstrui-lo, tal qual como era, no mundo que será destinado aos homens que, por cobardia, não de morrer, mas de querer continuar a viver, estiver destinado… E aí partirei para a luz distante… partirei para a luz distante…
segunda-feira, novembro 24, 2008
segunda-feira, novembro 17, 2008
Estrela Furiosa
Vem lá do longe o eco sofrido do desterrado sol que em tempos planava pelas planícies pardacentas dos campos ensanguentados das guerras que os deuses travaram nos tempos em que o tempo não era tempo e no tempos em que os homens não eram estrelas. Ele é brando, meigo, doce, ágil e delicado. Consigo senti-lo a penetrar-me a derme, a rasgar-me as veias e a percorrer-me o sistema circulatório em minúsculas fracções de segundo e é frio, doloroso, magoado, violento e talvez vingativo, suponho que seja vingativo, não sei se é vingativo ou não, mas temo-o pela sua facção vingativa ou pelo alvo da sua vingança, que posso ser eu, embora os motivos que justificarão este ódio de mim sejam uma ainda incógnita ininteligível. Que eco maldito e deforme é este que ouço com tanta clareza e que vive do dom de me pôr a estremecer pelo desconhecido? Que razões existem para que eu tema os resquícios de um som antigo a morrer lastimoso no vazio do espaço?O som canaliza-se para mim, flúi paulatinamente entre a complexa estrutura atmosférica e esbarra no interior dos meus ouvidos, e no desenredar do ruído ouço o grito das estrelas a morrer. O som reentrou no meu corpo, mas desta vez está próximo demais do cérebro e consigo descodificá-lo, eu sei qual é o som dúbio que se apossou do meu frágil corpo, conheço as razões veladas a cada nota emitida, eu vivo no som e o som vive em mim, somos a simbiose imperfeita das leis do universo diminuídas a relação sonora entre um emissor e um receptor e dessa relação edifica-se um estranho rendilhado de tempo e espaço bem no centro do meu peito, e a reinar nesse tecido bordado pelas aranhas mágicas do universo antigo encontra-se uma estrela moribunda que está pronta a morrer. A sua fúria é ingovernável e o meu corpo é efémero demais para aguentar as forças que o seu descontentamento provocam, mas eu consigo tocar com a ponta dos dedos nos sentimentos mais profundos dessa estrela, que são largados latentemente sem que ela tenha consciência de que os liberta e eu toco-os, acaricio-os, beijo-os com os lábio e beijo-os com as palmas das mãos, e dentro desses sentimentos renegados emerge uma doce sensação de alívio, de paz, de serenidade da qual não me sinto nobre em receber. Porque é que esta estrela, mais submergida em fúria do que a areia coberta pela enchente do mar, liberta serenidade e comiseração no momento da sua morte? Porquê?
São expelidos rugidos que crescem e diminuem e voltam a crescer e a diminuir, e é impossível aguentar a violência desta oscilação estando tão perto do seu âmago, sendo o imo cósmico deste belo e pavoroso feito.Há raios de luz a serem emitidos em todas as direcções e eu próprio desempenho o lugar da estrela na hora da morte, que me escolheu de entre muitos para ser o escudo incerto da sua fúria e guardador da sua serenidade. Os raios trespassam-me e saem à velocidade da luz do meu peito e viajam rapidamente para outros lugares recônditos do universo, são libertadas as camadas exteriores da bomba estrelar, logo após ter-se inflacionado dentro de mim, comigo, inflacionamos os dois para que o caos não se tornasse na realidade da humanidade que é minha vizinha, felizmente para mim, que tenho nas mãos o poder para ver-me livre dela para a eternidade, porém não quero nem os acho com importância para sequer pensar na sua insignificante existência neste momento de loucura. Esqueço-os. As camadas, as camadas externas da estrela quebraram as algemas e partiram em debanda em direcção ao próximo canto que albergará a próxima nova estrela e o próximo novo conjunto de planetas ou a próxima nova nebulosa planetária. A minha estrela em fúria é agora uma super nova e eu sou uma super nova consigo e ambos brilharemos juntamente, mais e mais intensamente do que qualquer outra estrela, e no nosso centro há um acumular enigmático de matéria que se adensa tão rapidamente, tão ligeiramente que destruiu o cofre de sentimentos negros que eu mantinha lacrado no centro do peito, sentimentos que levei eras a amaldiçoar e que me amaldiçoaram posteriormente, a partir do momento em que saíram do coração para ocupar o vazio que existe na minha mente, e agora fundem-se com a matéria densa que ficou exposta no momento em que as camadas exteriores da estrela se projectaram para o infinito. A fusão ocorre, e a uma intensidade desconcertante, fundem-se, fundem-se, e a estrela voltou a fundir, mas desta vez não funde hidrogénio em hélio, nem hélio em carbono, nem carbono em oxigénio…. Está a fundir a matéria extremamente densa da estrela, o seu centro, com sentimentos excessivamente densos do cofre do meu coração e a densidade está a atingir o ponto critico, não há volta a dar… os raios de luz estão a encurvar-se e a voltar à esfera de matéria densa e sentimento negro, passam pelo seu interior, são sujeitos a uma incrível transformação e voltam a ser emitidos e são-no repletos em electromagnetismo, raios púrpura são emitidos dos raios que foram capturados… Mas que raios são estes, que foram sujeitos ao peso do centro denso da estrela e dos sentimentos negros que guardava piamente no cofre do meu coração? Que género de efeitos provocarão no tempo espaço e que consequências terão para o despoletar de novos acontecimentos cósmicos que até então pura e simplesmente não existiam… O casamento entre um buraco negro cósmico e um buraco negro humano. Olhem-nas, que em tempos foram as explosões de raios gama, já não são iguais, há nelas um peso, uma dor, uma angústia, um ódio pelo nascimento e pelo renascimento que ocorre a cada minuto no universo. Será… Serão estes os raios que, depois de cozinhados a altas temperaturas no centro duma estrela moribunda que preferiu morrer num interior dum homem moribundo, tomarão o lugar de cocheiros do coche maldito que trará o tão aguardado fim ao universo através da destruição da matéria conhecida e desconhecida, da total desregulação das forças que o sustentam, da consumição da luz…. Da eterna escuridão. -------------------------
segunda-feira, novembro 03, 2008
A palavra que esconde a minha história
segunda-feira, outubro 20, 2008
Nem sei bem quê
Canta para mim minha musa, grita o meu nome e vamos fugir os dois. Naquele sono perpétuo seremos um só, para o incessante, e dele crescerão folhas impressas com listas de cores e a cromática ferirá os olhos cujas íris não tiverem cor e a cor repudiará as íris que quiserem ter cor. É esse o destino dos nossos olhares entrecruzados, tempo, que na morte deixaram de o ser e eu vencer-te-ei porque jamais farás parte dos meus dilemas. E assim me fico e assim quero fica, sem pernas nem braços, sem asas e penas que produzam melodias obscuras e lagos gélidos. Não, não. Só há negação no meu espírito é tudo tão confuso, tudo tão inversamente inverso, atrozmente atroz. ……
